quarta-feira, 11 de abril de 2012

Da Série "Charlatões Intelectuais": Parte 1 - Steven Pinker



Charlatões e papagaios

Charlatão é aquele que procura ludibriar outrem, ou seja, enganar, distorcer para favorecer-se ou oferecer algo como se fosse vantajoso quando na verdade não o é.  Um charlatão intelectual é alguém que distorce os fatos, manipula dados, recorta citações, utiliza falácias lógicas, tudo de modo a favorecer o ponto que pretende defender. Um charlatão intelectual talvez seja ainda mais perigoso que um charlatão ordinário, já que pode travestir o que pretende defender de ciência, munindo-se do prestígio desta (e até de sua autoridade ou de autores respeitados) para ludibriar, correndo o risco de persuadir não apenas a população de um modo geral, mas o próprio meio acadêmico e científico.

Isso ocorre porque, embora o meio acadêmico e científico procure estratégias para minimizar isso, a grande maioria da massa acadêmica e científica é composta pelo que chamo de papagaios intelectuais. Há as autoridades, os formadores de opinião, que são pouquíssimos, e uma multidão de papagaios para ecoar o que ouvem as autoridades dizerem.


"Oi, eu sou um papagaio intelectual!"


É algo delicado. Em certa medida, todos estamos susceptíveis a sermos, em algum momento, ludibriados por autoridades. Vamos supor que lemos incessantemente figuras que temos como autoridades da área dizendo que Louis Vitalle (nome fictício, só para exemplificar) foi um filósofo do século XIX que defendeu a escravidão, argumentando com base em Maquiavel que “os fins justificam os meios”. E que, ainda em nossa suposição, Vitalle foi superado quando Peter Bowen (idem) demonstrou a inconsistência deste argumento, e vemos até que muitas destas autoridades procuram esmiuçar melhor o argumento de Bowen e criticar o de Vitalle. É bastante possível que quando falarem de Vitalle conosco, associemo-lo com essas idéias e até que se perguntarem sobre ele, digamos que ele defendia isso, ainda complementando com nossa própria opinião, dizendo que Vitalle defende uma bobagem.

Mas o legítimo papagaio acadêmico é aquele que não apenas faz isso, como é capaz de escrever textos e artigos em cima de um possível espantalho do argumento de Vitalle (já que ele nunca o leu) e até mesmo um livro com o título “O Vitalleísmo na sociedade contemporânea: como idéias ultrapassadas mantêm o preconceito”.  É aquele que mesmo diante de alguém que estudou e conhece Vitalle e aponta que essa opinião é equivocada, trazendo trechos que demonstram o oposto e convocando-o a ler o autor, persiste no erro por orgulho (compromisso maior com seu ego do que com o conhecimento) ou por confiança cega nas autoridades (um problema que já levantei mais de uma vez aqui no blog).

Cansado do charlatanismo e da papagaiada que o sustenta, decidi escrever esta série de textos que visa esclarecer alguns equívocos e, por que não dizer na lata, mentiras muito difundidas. Confesso que tenho uma esperança um tanto ilusória de que cada texto seja suficiente para encerrar a questão de que tratarei e não precisarei mais ficar repetindo ad nauseam as mesmas coisas, mas se eles pelo menos esclarecerem algumas pessoas, for útil a outras e me poupar esforços em debates futuros, ele já terá cumprido sua função.


Parte 1 – Steven Pinker



Steven Pinker é um cientista cognitivo estadunidense e talvez seja o psicólogo mais famoso do mundo atualmente, já tendo figurado em listas como “As 100 pessoas mais influentes do mundo” da TIMES e cujos livros são best-sellers – especialmente se levarmos em conta como normalmente vendem pouco livros de psicologia e divulgação científica. Ele não é tão conhecido por alunos de Psicologia no Brasil, mas isso porque por aqui estudamos mais história da psicologia do que o que de fato vem acontecendo na área mundo afora.

Ele já tinha alguma fama, mais ou menos local, mas virou pop star mesmo quando Richard Dawkins começou a divulgá-lo e o próprio Pinker tornou-se um dos principais representantes das críticas à religiosidade (e teórico de explicações naturalistas da religiosidade) dentro da Psicologia.  Ateus, principalmente os leigos em Psicologia, começaram a tomá-lo como autoridade da área e divulgar bastante seus trabalhos. Isso também por que Pinker se diz um psicólogo evolucionista e a Psicologia Evolucionista também começou a ser bem quista e bem divulgada por este grupo, por, aparentemente, ser aquela linha da psicologia que leva em consideração a teoria da evolução pela seleção natural, de Darwin. E a seleção natural é algo bem estabelecido, elegante e querido por cerca de 11 em cada 10 ateus.

Os dois principais livros de Pinker são Como a mente funciona (1996) e Tábula rasa (2002), dois trambolhos de mais de 700 páginas cada um, nos quais Pinker apresenta dados de pesquisas, conjecturas, o cerne de uma abordagem evolucionista da mente e críticas às demais linhas teóricas da Psicologia. Seu nêmesis: o behaviorismo. São dezenas de referências ao behaviorismo e a autores behavioristas nesses dois livros. O Tábula rasa, em especial, é sustentado na idéia de que, quando se trata de comportamento humano, há uma “negação da natureza humana” por parte de muitos, incluindo acadêmicos e escolas teóricas inteiras. Como Locke, essas pessoas e escolas estariam, ao jogarem para escanteio a genética e a seleção natural, afirmando que o ser humano vem ao mundo como uma tábula rasa, sem nada “inscrito” nele, e que tudo que observamos é adquirido ao longo de sua vida. Os behavioristas seriam, supostamente, os maiores defensores dessa idéia.


Como a mente funciona




“Como a Mente Funciona” (1996) foi o primeiro livro bem vendido de Pinker. Nele, o pop star cognitivista se engaja na ousada tarefa de explicar, duh, como a mente funciona – como entrega o título. Claro, o autor é o primeiro a admitir que seja uma tarefa hercúlea e talvez impossível, já que não há tanto consenso na área e muito ainda está sendo estudado, mas aponta seus estudos prediletos como promissores para este empreendimento.

Assim, começa a delimitar, de maneira explícita e implícita, aqueles estudos e abordagens que seriam a via régia para uma psicologia científica que procura desvendar o homem, e aqueles ultrapassados estudos e abordagens que seriam os inimigos do conhecimento na psicologia, que têm freado os nobres desbravadores que ousam tentar descobrir como a mente funciona. E do começo ao fim de seu livro ele procura alocar o behaviorismo nesse segundo grupo:

“A velha teoria do estímulo e resposta da escola behaviorista afirmava que crenças e desejos não tinham relação alguma com o comportamento – de fato, que eram tão não científicos quanto uma lenda folclórica ou a magia negra. (...) Como observou o célebre behaviorista B.F. Skinner: ‘A questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens pensam’.”
            Obviamente, homens e mulheres pensam; a teoria do estímulo-resposta revelou-se errada. Por que Sally saiu correndo do prédio? Por que acreditava que ele estava pegando fogo, e ela não queria morrer.” (Pinker, 1996/1998,p.73)

Ao ler este trecho, qualquer pessoa minimamente familiarizada com o behaviorismo já se dará conta de que hercúlea mesmo talvez seja a tarefa que estou empreendendo aqui. Afinal, cada frase deste trecho contém tantos, mas tantos erros, que se dar ao trabalho de refutar um livro inteiro repletos destes é aquele tipo de tarefa em que somos vencidos pelo cansaço antes mesmo de começarmos.  Por sorte, Pinker não apenas comete uma enormidade de erros, mas também os repete muito, o que me permite refutar apenas uma vez pontos que aparecem repetidamente.

No trecho acima, portanto, já podemos observar algumas desonestidades e desconhecimentos. Para começar, tachar a idéia que pretende refutar de “velha” já é um estratagema erístico  para conduzir o leitor a ver com maus olhos a teoria, pois já insinua como definitivo e aprioristico de que ela é ultrapassada. O que não precisamos ter pudor em dizer que era sua intenção, já que logo a frente diz que a teoria “revelou-se errada”, tomando, o que deveria ser uma conclusão, como uma petição de princípio.

Se formos generosos com Pinker, podemos tentar argüir que ele chama de velha é apenas a teoria estímulo-resposta do behaviorismo, teoria que, de fato, caiu em desuso (desconheço behavioristas watsonianos, mas corrijam-me se eu estiver errado). Hoje, e já há mais de meio século, a modalidade de behaviorismo a qual os behavioristas contemporâneos têm como referência é o chamado behaviorismo radical, de Skinner, que não é “estímulo-resposta”. Mas fica difícil ceder isso a Pinker quando ele mesmo, logo em seguida, coloca Skinner neste mesmo balaio, tomando-o como referência desta concepção “velha” e “errada”. E, claro, pelo fato de que esse erro é repetido algumas vezes no livro:

“Skinner e outros behavioristas asseveraram que toda conversa sobre eventos mentais era especulação estéril; somente as conexões estímulo-resposta poderiam ser estudadas no laboratório e no campo. Exatamente o oposto revelou-se verdadeiro.” (p.95)

Isso começa a sinalizar um equívoco que está colocando sua cabecinha para fora nesse trecho, mas que vai se repetir muitas vezes mais a frente: confundir “teoria do estímulo e resposta” com behaviorismo, confundir behaviorismo com behaviorismo radical, confundir “teoria do estímulo e resposta” com paradigma operante (de Skinner) e generalizar “behaviorismo”, sendo que existem várias modalidades deste. Isso é um erro primário, que qualquer pessoa minimamente preocupada em ler algo a respeito do que vai criticar antes de escrever sobre descobriria logo nas primeiras leituras. Mas temos evidências de que Pinker saiba disso, mas que mesmo assim deliberadamente manipula os termos de modo a induzir o leitor leigo ao erro, como demonstrarei mais contundentemente ao longo do texto.

Pois bem, essa confusão e generalização é um erro, pois era Watson quem propunha o estudo do comportamento através de esquemas de estímulo e resposta, sendo uma proposta reconhecida como mecanicista, já que envolve apenas uma relação mecânica: um estímulo que elicia uma resposta. Já o Behaviorismo Radical trabalha com relações funcionais, numa proposta que envolve um contexto que produz uma determinada resposta, que, por sua vez, tem uma conseqüência. Esta conseqüência, por seu turno, influencia a probabilidade futura de uma resposta similar num contexto similar. Uma conseqüência que aumente a probabilidade de o organismo voltar a emitir aquela resposta em contextos similares é chamada de reforçadora; uma consequência que diminua essa mesma probabilidade é chamada de punitiva. Em suma, é uma noção de causalidade formulada em termos de relações funcionais entre eventos, o que é um modo de afastar-se de posturas mecanicistas.

Dado que já há quase um século a modalidade de behaviorismo que é adotada mundo afora é o behaviorismo radical, quando eu me referir a behaviorismo ao longo deste texto, estarei falando do behaviorismo radical, também para entrar em consonância com o autor, que evidencia estar atacando este, apesar de falar apenas “behaviorismo”.


Em seguida, ainda no mesmo trecho (da página 73, supracitado), Pinker diz que o behaviorismo rejeita crenças e desejos, que estes nada teriam a ver com o comportamento. Isso também é distorcer os fatos em prol do ponto que pretende consolidar. O que o behaviorismo rejeita é que as explicações dos comportamentos cessem no que chamamos de “desejos” e “crenças”. Este é o cerne da crítica behaviorista ao mentalismo: não que o behaviorismo acredite que não existem aqueles processos que chamamos de “mentais”, como o pensar, sentir, querer, a consciência e outros, mas rejeita-os como entidade, como agentes e como causa suficiente para a explicação do comportamento humano. Dizer que Sally saiu correndo do prédio “Por que acreditava que ele estava pegando fogo, e ela não queria morrer” não é explicar o comportamento, mesmo que a própria Sally o explique assim.  É circular: por que Sally saiu correndo do prédio? Por que ela acreditava que ele estava pegando fogo e não queria morrer. Por que você acha que a Sally acreditava que o prédio estava pegando fogo e ela não queria morrer? Por que ela saiu correndo do prédio. E assim ad infinitum.

Uma boa explicação científica é aquela que melhor permite prever e controlar o fenômeno, coisa que as explicações mentalistas não são boas. A explicação behaviorista para Sally ter saído correndo do prédio infelizmente será mais complexa do que “porque ela quis assim” do cognitivismo popular de Pinker. Mas eis o demérito de muitas explicações científicas: muitas vezes elas requerem maior esforço e investigação do pesquisador. De maneira semelhante, explicar a origem da vida de maneira convincente para um leigo absoluto, exigirá mais atenção do que uma explicação como “porque Deus quis assim”. Assim, podemos especular que Sally saiu correndo do prédio talvez por razões filogenéticas (se é que há algo como uma resposta inata de fuga diante de muito fogo) somadas à sua história de vida, que inclui suas experiências aversivas com fogo; sua aprendizagem de que ele queima (ela não precisa ter sido queimada, podem ter ensinado isso a ela); de que, em caso de incêndio, deve sair correndo; de talvez ter visto filmes, programas, documentários, lido livros, em que tomou conhecimento de que se ficar dentro de um prédio em chamas, morrerá queimada; etc. Pessoas que não passaram por essas ocasiões, não irão simplesmente querer , brotar um desejo, de sair correndo do prédio. E se uma pessoa é insistentemente ensinada que, em caso de incêndio, ela deve se esconder debaixo da cama, aconteça o que acontecer, dizer que ela, diante do incêndio, se escondeu debaixo da cama “por que teve vontade” é uma pseudo-explicação, insuficiente e que negligencia importantes questões na explicação do comportamento.

É claro que existe isso  que chamamos de desejos e crenças, mas eles também têm uma causa e um behaviorista acredita que compreender a causa destes é uma explicação melhor para o comportamento, pois permite que você compreenda, preveja e altere o comportamento de maneira mais eficaz.

Sobre o behaviorismo ver crenças e desejos como algo não-científico, isso parece um espantalho do que disse Watson, “pai” da modalidade de behaviorismo citada mais acima, aquela que de fato caiu em desuso. O que ele diz é que crenças, desejos, pensamentos e até sentimentos são difíceis de estudar, por não permitirem observação consensual de múltiplos pesquisadores, e que a Psicologia deveria parar de privilegiar a introspecção como método e focar-se nos comportamentos observáveis. Isso coloca Watson com um raciocínio próximo de algumas modalidades de positivismo. Mas o que nos diz respeito é que isso não fala muito sobre os demais behaviorismos, em especial o skinneriano (behaviorismo radical), já que esta não é, absolutamente, a posição de Skinner. Skinner chama as crenças, desejos, pensamentos, emoções, e demais eventos geralmente chamados de “mentais”, de eventos privados. Privados, pois apenas uma pessoa, a princípio, tem acesso a eles: o próprio sujeito que pensa, deseja, etc. E os eventos privados não apenas são considerados como têm uma centralidade na teoria skinneriana:

"Na medida em que o comportamento verbal começa a ser estudado, amplia-se a abrangência deste fazer, de forma a incorporar todos os níveis da ação humana; os eventos privados, a moral, o pensamento, a consciência, a alienação e a própria ciência, que é compreendida como uma forma de comportamento (...). O estudo do comportamento verbal permite propor eventos privados como pertencentes ao seu objeto de estudo, o que afasta Skinner de posturas metodológicas que defendem a necessidade de observação direta como condição de tomar um objeto como passível de ser estudado pela ciência, uma vez que ela permitiria um consenso público." (Michelleto, 2001, p.41)

Mas não satisfeito em desinformar a respeito do behaviorismo, Pinker fecha seu parágrafo com uma suposta citação de Skinner, que endossaria seu ponto de que os behavioristas ignorariam pensamentos e outras atividades não-diretamente-observáveis: “Como observou o célebre behaviorista B.F. Skinner: “A questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens pensam”(p.73).

Não é em vão que Pinker não traz referência alguma da citação: vai que alguém procura! Eu mesmo procurei bastante e não achei referência a não serem as que remetem ao próprio Pinker e outros já haviam tentado procurar e não acharam (Carvalho-Neto, 2001). Mas meu amigo Ramon Cardinali se lembrava de ter lido algo semelhante e conseguiu achar a fonte: "Mas a questão real não é se as máquinas pensam, mas sim se os homens pensam. O mistério que envolve uma máquina pensante já envolve o homem pensante." (Skinner, 1969/1984, p.387-388) Mas ao ler o contexto no qual a frase aparece, fica evidente a razão pela qual Pinker omite a referência. Skinner não estava dizendo ou insinuando que os homens não pensam, como o autor tenta nos convencer: “Obviamente, homens e mulheres pensam; a teoria do estímulo-resposta revelou-se errada.” Tentando não apenas dar como enterrada a teoria que pretende criticar como também dizendo que ela acreditava que os homens e mulheres não pensam, o que é um absurdo e uma mentira muito distante da realidade. Skinner disse isso enquanto debatia sobre inteligência artificial e procurava atentar para a importância de se definir melhor, operacionalizar melhor, o que entendemos por “pensar” antes de dizer que as máquinas pensam.

Um defensor do psicólogo evolucionista poderia dizer que é difícil afirmar que Pinker deliberadamente omitiu a referência para prestidigitar o leitor, mas que pode ter ouvido alguém atribuir essa fala a Skinner e colocou em seu livro. Pois, caro defensor, isso não melhora em nada a situação do psicólogo. Ouvir numa mesa de bar, no corredor de uma universidade ou seja onde for  que alguém disse algo e utilizar isso em seu livro sem se preocupar em verificar a fonte, a veracidade daquilo, tomando como fato um boato informal, já é de uma desonestidade intelectual, de um descompromisso com a verdade ímpar. É evidência de que se trata de um profissional que não está interessado em construir conhecimento, mas apenas em construir uma próspera carreira para si.
E, infelizmente, tem sido bem sucedido nisso.

Tá na boa, né Pinker?


Concluindo seu raciocínio, Pinker procura demonstrar por que Skinner estaria errado, dando um exemplo de explicação de um comportamento: “Por que Sally saiu correndo do prédio? Por que acreditava que ele estava pegando fogo, e ela não queria morrer.”

A maioria dos psicólogos e até mesmo estudantes de Psicologia pensarão que Pinker está brincando ou debochando do behaviorismo, talvez insinuando que até pseudo-explicações como essa, pra lá de senso comum e ineficaz, seriam melhores que as behavioristas. Mas não, ele está falando sério. Steven Pinker é adepto da psicologia intuitiva ou psicologia popular (folk psychology) como capaz de fornecer as melhores explicações psicológicas que dispomos, como ele mesmo esclarece e repete várias vezes em seu livro:

“No nosso dia-a-dia, todos nós predizemos e explicamos o comportamento de outras pessoas com base no que achamos que elas sabem e no que achamos que elas desejam. Crenças e desejos são as ferramentas explicativas de nossa psicologia intuitiva, e a psicologia intuitiva ainda é a mais útil e mais completa ciência do comportamento que existe. Para predizer a grande maioria dos atos humanos – ir até a geladeira, subir no ônibus, pegar a carteira – você não precisa labutar num modelo matemático, simular uma rede neural no computador nem procurar um psicólogo profissional; basta perguntar à sua avó.” (Pinker, 1996/1998, p.74-75)

Esse pensamento de Pinker parece ser influência do filósofo Daniel Dennett, uma das personalidades mais citadas pelo psicólogo. Tratarei de Dennett com o devido esmero em breve (a parte 2 da presente série será dedicada a ele), mas podemos adiantar que o filósofo dedicou-se a tecer argumentos em defesa da psicologia intuitiva como ferramenta para compreender e prever o comportamento alheio. Podemos ver esboços do pensamento do filósofo mais claramente no trecho a seguir, onde Pinker aproveita para novamente criticar o behaviorismo:

E agora chegamos ao modo como a mente conhece outras mentes. Somos todos psicólogos. Analisamos mentes não só para acompanhar as tramas das novelas na televisão mas para entender as mais simples ações humanas. O psicólogo Simon  Baron-Cohen defende esse argumento com uma história.  Mary entrou no quarto, andou lá dentro e saiu. Como você explica isso? Talvez você diga que Mary estava procurando algo que desejava encontrar e pensou que aquilo se encontrava no quarto. Talvez  você diga que Mary ouviu alguma coisa no quarto e quis saber o que fez aquele barulho. Ou talvez diga que Mary esqueceu aonde estava indo; talvez,  na verdade, ela pretendesse ir para o andar de baixo. Mas você com certeza não diria que Mary faz exatamente isso todos os dias nessa hora: ela entra no quarto, anda lá dentro e depois sai. Não seria natural explicar o comportamento humano na linguagem de tempo, distância e massa dos físicos e, além disso, seria errado; se você voltasse no dia seguinte para testar a hipótese, ela seguramente seria refutada. Nossa mente explica o comportamento das outras pessoas segundo as crenças e desejos que elas têm, pois o comportamento das outras pessoas, de fato é causado por suas crenças e desejos. Os behavioristas estavam enganados, e todo mundo intuitivamente sabe disso.” (IBID, p.349)

Pinker tem razão ao dizer que todos nós, em alguma medida, “analisamos mentes”, ou seja, tentamos entender por que fulano fez o que fez e pressupomos um mundo privado nas pessoas, que elas são capazes de pensar, sentir, refletir, têm consciência, assim como nós. Dois termos que se tornaram populares falam disso: pressupor que as outras pessoas têm esse rico mundo privado é chamado de teoria da mente e pressupor que façam algo com alguma intenção se chama postura intencional.

Mas isso não faz de alguém um psicólogo mais do que observar e se indagar sobre os céus faz de alguém um astrônomo. Pinker, inclusive, ao dizer que o behaviorismo está errado porque as pessoas tendem a explicar o comportamento alheio a partir de suas crenças e desejos e que “todo mundo intuitivamente sabe disso”, lança um argumento similar a alguém que, em uma comunidade que venera a lua como uma deusa, diz que “as pessoas explicam os movimentos nos céus através das brigas dos deuses. Os astrônomos estavam enganados, e todo mundo intuitivamente sabe disso”. O seu argumentum ad populum não é uma justificativa ou boa explicação, mas simplesmente mais uma falácia lógica.

E novamente constrói um espantalho do behaviorismo ao insinuar que uma explicação behaviorista envolveria Mary fazer exatamente aquilo todos os dias naquela hora e, portanto, uma observação casual de que isso não ocorre seria suficiente para fazer ruir o behaviorismo. E nesse momento, Skinner, com algumas medalhas como a National Medal of Science (1968) e American Psychological Association Citation for Outstanding Lifetime Contribution to Psychology (1991) no pescoço, se revira no caixão. Aliás, é tanta bobagem que sai das mãos do autor, que se Skinner ainda não se ergueu de seu túmulo repetindo “Brains, brains...” deve ser por que não encontraria muito alimento no psicólogo evolucionista.



O fato é que a caracterização do behaviorismo por Pinker está muito distante da realidade. Uma visão similar foi perpetuada pelo linguista Noam Chomsky que, ao criticar um livro de Skinner (Chomsky, 1959), sugeriu que a linguagem prova que os behavioristas estão equivocados, já que existem infinitas combinações diferentes dentro da linguagem e que as pessoas não podem ter sido reforçadas em cada variação possível para emiti-las, mas que são capazes de emitir frases que nunca antes construíram, fazer combinações, sem que estas tenham sido reforçadas anteriormente – já que nunca haviam ocorrido. A crítica de Chomsky é tão distante das asserções skinnerianas que o próprio Skinner não quis responde-las (o que considero um erro, como já apontei em outro texto aqui no blog), dizendo simplesmente que o linguista não leu seu livro ou não o entendeu, contando que a crítica inapropriada não valia a resposta e se desvaneceria com o tempo [1]. Claro, o erro de Skinner foi pressupor que a honestidade intelectual prevaleceria, que antes de ecoar as críticas do linguista as pessoas se dariam ao trabalho de ler seu livro e assim veriam o absurdo da crítica por si mesmas. Em suma, seu erro foi ignorar os papagaios intelectuais e seu imenso poder.

O cerne do erro tanto de Pinker quanto de Chomsky é o mesmo: para o behaviorismo, você não faz apenas o que já fez anteriormente, tampouco tudo que faz é porque agiu exatamente da mesma forma antes e foi reforçado. O behaviorismo não apenas considera a variabilidade comportamental como ela é central em seu princípio mais fundamental: a seleção por consequênciasA seleção por consequências é um análogo da seleção natural. Enquanto nesta última ocorrem variações genéticas que são selecionadas ou não de acordo com as consequências que produzem, na seleção por consequências são variações comportamentais que são selecionadas de acordo com as consequências que produzem. As variações ocorrem porque é impossível ser exatamente o mesmo contexto, a resposta ser completamente idêntica, ou produzir uma consequência idêntica, já que o estímulo nunca será o mesmo, o organismo que responde já não será exatamente o mesmo, aquilo não ocorrerá no mesmo espaço-tempo de outrora, etc. Assim, variações comportamentais são selecionadas ou não, modeladas ou não. Fora isso, uma pessoa também pode aprender algo por modelação (viu alguém fazendo) ou por que alguém a instruiu verbalmente a fazer.

Remetendo ao exemplo que Pinker dá, “Mary entrou no quarto, andou lá dentro e saiu” é simplesmente pouca informação pra explicar de maneira satisfatória esse comportamento. Mary pode ter entrado no quarto por n motivos, que ficariam mais claros se tivéssemos mais informações sobre o contexto no qual Mary ali entrou. Nem por isso as explicações senso-comum de Pinker são melhores, da mesma forma que se disser que uma estrela surgiu no céu porque alguém faleceu, não vai ser uma explicação melhor do que a do astrônomo que precisará de mais informações para explicar o fenômeno (afinal, pode ter se formado uma estrela, ou pode ter sido só uma nuvem que saiu do caminho, ou uma supernova que aumentou seu brilho antes da estrela falecer, ou outrora havia um buraco negro equidistante do caminho da luz da estrela até nós, entre outros).

É curioso também que essa crítica de Pinker, de que “Não seria natural explicar o comportamento humano na linguagem de tempo, distância e massa dos físicos” (coisa que o behaviorismo não faz – e não sei os demais behavioristas, mas eu ao menos não o faço porque não somos capazes. Não tenho problema nenhum com isso, dane-se ele não achar “natural” e eu acharia o máximo se tivéssemos recursos e conhecimentos para explicar dessa forma. Mas tergiverso...), seja um tanto contraditória com outra que faz anteriormente, ainda no mesmo livro:

“O próprio Skinner não asseverou obstinadamente que estímulos mensuráveis como comprimentos de onda e formas prediziam o comportamento. Em vez disso, ele definiu os estímulos segundo suas próprias intuições. Satisfez-se plenamente considerando o “perigo” – assim como o “elogio”, o “inglês” e a “beleza” – uma espécie de estímulo. Isso tinha a vantagem de manter sua teoria condizente com a realidade, mas era a vantagem do roubo em relação ao trabalho honesto.Entendemos o que significa um mecanismo responder a uma luz vermelha ou a um ruído alto – podemos até produzir um que faça isso – mas os humanos são os únicos mecanismos do universo que reagem ao perigo, ao elogio, ao inglês e à beleza.” (p.74)

Pois é, né?
Mas então, Pinker, não há desonestidade nenhuma nisso (e que ironia ele acusar alguém de desonestidade, não?). Não reagimos ao elogio, ao inglês e à beleza magicamente, mas todos esses são um conjunto de estímulos que rotulamos de determinada maneira (“perigo”, “elogio”, etc.), estímulos estes que eliciam uma resposta no organismo – do contrário não reagiríamos a eles. Se eliciarem respostas no organismo, por que não chama-los de estímulo? Mas Skinner se preocupou com isso. Para não acharem que por estímulo ele estava se referindo apenas a uma única coisa que elicia uma resposta, passou a usar cada vez menos a palavra “estímulo” e cada vez mais a palavra “contexto”. 

Por fim, não somos os únicos a reagirem ao perigo, elogio, inglês ou beleza. Temos computadores diversos que conseguem responder diferencialmente a isso e já conseguimos até treinar pombos a ser uma espécie de críticos de arte.

"aprecio o traço, o pulso, a sátira, mas nada estimula meu deleite  neste quadro"


Vou acelerar essa bagaça porque isso já está grande demais e o principal de suas críticas nesse livro já foi coberto. Ele repete algumas vezes o que aqui já foi comentado e todas as vezes em que cita Skinner ou o behaviorismo comete algum equívoco. Por exemplo, na página 125 diz que o behaviorismo é uma versão do associacionismo.  Não é. Ao contrário do que propõe o associacionismo, o behaviorismo não acredita nem que toda relação que os seres humanos estabeleçam entre eventos têm de estar temporalmente próximos, nem que todo conhecimento provenha da experiência.

E nas páginas 408 e 409 discorre sobre como os behavioristas estão errados porque nem todo medo é aprendido e existe alguns medos que não podem ser aprendidos, como ter medo de coisas “neutras”, como binóculos, martelos ou carros. Só que o behaviorismo nunca afirmou que todo medo é aprendido e, com relação à afirmação de que é impossível adquirir medo de coisas “neutras”, Pinker não traz nenhuma evidência para a sua afirmação e... bem, acho que um bom número de psicólogos, especialmente aqueles que lidam com transtornos de ansiedade e fobias, já devem ter encontrado pacientes com medo de carros. Eu já. Assim como já tive clientes que respondiam com pavor diante de coisas como “boné”, “vermelho”, “motos”, “jaqueta de couro” e outros. Se existem alguns medos que não podem ser aprendidos, é uma coisa interessante a ser testada, mas mesmo se existirem, isso não iria contra o que afirma o behaviorismo. Porque parece que Pinker simplesmente é incapaz de assimilar que o behaviorismo não acha que tudo é aprendido.
O que nos leva ao segundo livro...



Tabula Rasa



O livro é centrado em um argumento negativo: combater a ideia da tabula rasa, que supostamente ainda está muito presente no senso comum e na ciência contemporânea. Para isso, Pinker se propõe a atacar aqueles que defendem a tabula rasa e trazer explicações alternativas para os fenômenos. Há um misto de dados de pesquisas interessantes com uma continuidade do que já havia feito no livro anterior, uma interpretação a La psicologia popular, a ponto de Patrick Bateson, renomado biólogo, ter escrito em sua resenha sobre este livro, publicada na Science, que “asserções de botequim não levam à discussão balanceada que deveria ser gerada por um tópico tão importante quanto esse” (Bateson, 2002) [2]. O próprio Bateson também questiona a tese central do livro, se há de fato essa negação da filogenética, apontando que o psicólogo passa quase todo o livro atacando caricaturas que ele mesmo construiu.

Ainda mais do que em seu livro anterior, Pinker abusa de adjetivos, falácias e faz diversas afirmações sem citar fontes ou trazer evidências que as sustentem. Repete muitos dos erros cometidos no livro analisado acima, como novamente dizer que o behaviorismo segue o associacionismo de Locke (p.40), que os behavioristas ignoram tudo que é subjetivo e só se preocupam com o comportamento manifesto (p.40, p.41), entre outros, provando que manteve sua aversão ao estudo nos anos seguintes ao livro anterior. E desta vez é extremamente raivoso em seu ataque ao behaviorismo e em especial a Skinner, comparando estes a torturadores (p.236), a stalinistas (p.237), chama Skinner de “maoista” (p.337) e outros.

O que o psicólogo evolucionista tenta fazer é pintar os behavioristas como aqueles que querem manipular o ser humano, controlá-lo como autômatos, propor uma uniformidade entre as pessoas e até instaurar o comunismo (!?!??). De onde Pinker tira isso, só ele sabe, já que nunca traz referências. É extremamente irônica essa associação, já que Skinner é ainda mais frequentemente acusado de ser um típico representante do capitalismo e do pensamento estadunidense (Cruz, 2010).

Seja como for, o behaviorismo tem um papel importante em seu livro, por ser, supostamente, o maior representante da tabula rasa. Para quem não sabe o que isso quer dizer e está até agora boiando quando uso a expressão, “tabula rasa” foi um termo utilizado por Locke em seu “Ensaio Sobre o Entendimento Humano” (1690) para exemplificar de onde vem o conhecimento humano. Ele disse que nós chegamos ao mundo como uma tabula rasa e nela vão tendo inscrições ao longo do tempo, ou seja, que tudo que sabemos, aprendemos ao longo de nossa vida. A preocupação de Pinker é que existiriam esses defensores da tabula rasa na ciência contemporânea, que procuram negar a genética e o evolucionismo.

"Os behavioristas acreditavam que o comportamento podia ser compreendido independentemente do resto da biologia, sem atentar para a constituição genética do animal ou para a história evolutiva da espécie. A psicologia passava a consistir no estudo do aprendizado em animais de laboratório.B.F. Skinner (1904-90), o mais célebre psicólogo de meados do século XX, escreveu um livro intitulado The behavior of organisms ["O comportamento dos organismos", sem tradução em português], no qual os únicos  organismos eram ratos e pombos e o único comportamento era pressionar uma alavanca e bicar uma tecla. Foi preciso uma visita ao circo para lembrar os psicólogos de que as espécies e seus instintos tinham importância, sim. Em artigo intitulado "The misbehavior of organisms" ["O mau comportamento dos organismos", sem tradução em português], Keller e Marian Breland, alunos de Skinner,  relataram que quando tentaram usar as técnicas do mestre para treinar animais a inserir fichas de pôquer em máquinas automáticas, as galinhas bicaram as fichas, os guaxinins urinaram nelas e os porcos tentaram enterrá-las com o focinho. E  os behavioristas eram tão hostis com o cérebro quanto com a genética. Já em 1974, Skinner escreveu que estudar o cérebro  era só mais uma busca equivocada das causas do comportamento no organismo, em vez de no mundo exterior. " (Pinker, 2002/2004, p.41-42)

Vamos por partes.

Para começar, os behavioristas não acreditam que o comportamento pode ser “compreendido independentemente do resto da biologia”. É, na verdade, frequentemente o extremo oposto:

“Num primeiro momento, Skinner toma como modelo as ciências físicas e as transformações que ela enfrentava. Em sua obra mais madura, ele passa a operar com o modelo biológico, mais especificamente o fornecido pela teoria da evolução por seleção natural. Skinner, em 1938, defende que seu livro Behavior of Organism está voltado para uma análise do comportamento orientada por um sistema do qual a físico-química é um exemplo (Skinner, 1938/1966, PP. 434-435). Na década de 70, insere sua ciência no ramo da Biologia (Skinner, 1973ª/1978; 1974)."  (Michelleto, 2001, p.35)

Tampouco nega a genética, que para os behavioristas tem um papel importante na Psicologia, permitindo compreender aspectos fundamentais do comportamento e traçando potenciais e limites da intervenção do psicólogo. Nas palavras de Skinner:

“Para que haja comportamento é necessário um organismo que se comporte, e este organismo é produto de um processo genético. (...)  o conhecimento do fator genético nos capacita a fazer melhor uso de outras causas. Se soubermos que um indivíduo tem certas limitações inerentes, poderemos usar mais inteligentemente nossas técnicas de controle, mas não podemos alterar o fator genético.” (Skinner, 1953, p.23)

Mais absurdo ainda – se é que tem como – é a afirmação de que se negligencia a evolução pela seleção natural.  Skinner não apenas respalda a teoria da evolução e seleção natural, como que ela tem um papel central em suas principais obras (Skinner 1949; 1953; 1974; 1987; 1990), sempre pressupondo que o organismo que ele analisava e teorizava a respeito de seu comportamento era fruto do processo de evolução das espécies pela seleção natural. Mais do que isso, “Skinner busca na seleção natural os princípios que orientam sua concepção de objeto” (Michelleto, 2001, p.42), até que “gradualmente estes princípios se estendem à própria noção de causalidade” (IBID).

Skinner chega mesmo a considerar uma abordagem científica do comportamento humano como uma continuidade do trabalho de Darwin:

“No começo do século XIX, já era bem conhecido o fato de as espécies terem sofrido mudanças progressivas no sentido de formas mais adaptáveis. Estavam-se desenvolvendo ou amadurecendo e uma melhor adaptação ao meio ambiente sugeria uma espécie de propósito. Não se tratava de saber se ocorriam ou não mudanças evolutivas, e sim o porquê delas. Tanto Lamarck quanto Buffon recorriam ao propósito supostamente mostrado pelo indivíduo ao adaptar-se ao seu ambiente – propósito que, de alguma forma, se transmitia às espécies. Coube a Darwin descobrir a ação seletiva do ambiente, assim como cabe a nós completar o desenvolvimento da ciência do comportamento com uma análise da ação seletiva do meio." (Skinner, 1974, p.60-61)

É falsa também a afirmativa de que “A psicologia passava a consistir no estudo do aprendizado em animais de laboratório”, já que o cerne dos estudos behavioristas é, obviamente, o comportamento humano. Pinker deveria ter feito uma visita ao maior periódico de análise do comportamento do mundo, com quase 50 anos de atividade e com todos seus textos disponíveis online. Convido para que façam uma coleta de quantos experimentos ali são com animais não-humanos: http://seab.envmed.rochester.edu/jaba/

O que justifica um behaviorista realizar experimentos com animais não-humanos é justamente a crença de que não há uma ruptura abrupta entre o ser humano e os demais animais (continuidade entre espécies), de modo que, embora não sejamos de modo algum idênticos aos demais animais, os princípios básicos que controlam o comportamento, tanto do ser humano quanto dos demais animais, são os mesmos. Então, da mesma forma que um fisiologista poderia demonstrar os princípios básicos do funcionamento do organismo humano através da dissecação de outro animal – demonstrando os músculos lisos, a medula espinhal, as conseqüências de um dano ao córtex, o funcionamento de órgãos internos, etc – um behaviorista poderia demonstrar os princípios básicos do comportamento humano através de experimentos com ratos.

Em nenhum dos casos, tanto do fisiologista quanto do behaviorista, acredita-se que o ser humano seja idêntico aos demais animais, mas que tenha um funcionamento básico similar. As diferenças teriam de ser devidamente consideradas, da mesma forma que um fisiologista provavelmente não seria prudente ao ensinar o funcionamento do cérebro humano a partir do de uma rã, um behaviorista tem de fazer muitas considerações a respeito de características especificamente humanas e levá-las em consideração em sua análise. Como aponta Skinner, “dizer que o comportamento nada mais é do que uma resposta a estímulos constitui uma ultra-simplificação. Dizer que as pessoas são exatamente como os ratos ou os pombos é uma ingenuidade.” (Skinner, 1974, p.195)

O Pinker e o Cérebro?

 
Isso por si só já responde a crítica de Pinker ao “O Comportamento dos Organismos”, o primeiro livro de Skinner, publicado em 1938, logo após defender seu doutorado, e que nem de perto reflete a ciência que apenas mais tarde Skinner sistematizaria. Mesmo assim, Pinker erra feio novamente, pois, ao contrário do que diz, não há um experimento sequer com pombos em todo o livro – e desafio qualquer defensor do psicólogo a achar. O que já nos mostra que nem se deu ao trabalho de ler o livro que critica... Para piorar, parece ignorar solenemente o que Skinner ressalta logo no começo do livro:

“No sentido mais amplo, uma ciência do comportamento deve estar preocupada com todos os tipos de organismos, mas é sensato limitar-se, ao menos no começo, a um único exemplo representativo. Devido a uma certa antropocentricidade de interesses estamos inclinados a escolher um organismo que seja tanto similar ao homem quanto conveniente em termos de experimentação e controle.” (Skinner, 1938, p.47)

Seguindo ainda o mesmo trecho do Tabula Rasa, ele cita o “The Misbehavior of Organisms”, do casal Breland, como se fosse um “cala a boca” em Skinner. Nada poderia estar mais distante da realidade, tanto que eles continuaram behavioristas até o fim de suas vidas e suas experiências serviram para aperfeiçoar o treinamento de animais que até hoje é usado. Keller e Marian Breland fizeram algo que se Pinker tivesse pesquisado teria achado em abundância: behavioristas tentando delimitar até onde vão questões filogenéticas, até onde vão questões ontogenéticas. Mas, claro, mesmo se tiver achado, já temos bons motivos para acreditar que não publicaria, já que faria ruir a tese central de seu livro.

Fechando esse trecho, Pinker diz: “Já em 1974, Skinner escreveu que estudar o cérebro era só mais uma busca equivocada das causas do comportamento no organismo, em vez de no mundo exterior.”. O autor só pode estar se referindo ao único livro de Skinner em 1974, o “Sobre o Behaviorismo”. Procurei e não encontrei nada que sequer lembre o que ele atribui a Skinner. É possível, no entanto, encontrar o exato oposto, já que ao longo de toda sua obra sempre foi ressaltada a importância da fisiologia e neurociências. Ele apenas acreditava que tomar o cérebro como causa dos comportamentos, ao invés da história evolutiva e a história de vida, era uma estratégia ruim de investigação, que negligencia o fato de que o cérebro só tem determinada atividade a partir de um contexto.

Mas o psicólogo-evolucionista-“cientista”-cognitivo não se cansa:

Quando paramos para pensar, a ideia de uma natureza humana maleável não merece sua reputação de otimismo e enaltecimento. Se merecesse, B.F. Skinner teria sido louvado como um grande humanitário” (p.236)

O problema é que foi e não foi pouco. Skinner ganhou diversos prêmios por suas contribuições (algumas já mencionadas), incluindo... Humanista do Ano da American Humanist Society, em 1972. Pois é. Continue, Pinker:

“Skinner era defensor ferrenho da tabula rasa e um utopista exaltado.” (IBID)

Já explicamos bem esse ponto. Deixemos para o próprio Skinner a honra de jogar a última pá de terra sobre a questão:

“Nenhum estudioso do comportamento de boa reputação, jamais defendeu “que o animal chega ao laboratório virtualmente como uma tábula rasa, ou que diferenças entre espécies são insignificantes, e que todas as respostas são igualmente condicionáveis a estímulos.”” (Skinner, 1984, p.303)

Obrigado.
Mas continuando no mesmo trecho do Tabula Rasa:

“Por que a maioria das pessoas sente repulsa por essa visão? Críticos de Beyond freedom and dignity [Para além da liberdade e da dignidade, na tradução em português], de Skinner, ressaltaram que ninguém duvida da possibilidade de controlar o comportamento; apontar uma arma para a cabeça de alguém ou ameaçar a pessoa de tortura são técnicas tradicionais. Até mesmo o método preferido de Skinner, o condicionamento operante, requeria fazer o organismo passar fome até que seu peso se reduzisse a 80% do que seria com alimentação livre e confiná-lo em uma cela onde os esquemas de reforço fossem cuidadosamente controlados. A questão não é se somos capazes de mudar o comportamento, e sim a que custo.” (p.236-237)

É ignorado o fato de que para Skinner, como para a maioria dos filósofos da ciência, controle se refere a qualquer relação entre eventos que de alguma forma se determinam. Se o comportamento humano não brota por geração espontânea, ou seja, se tem uma causa, então ele é controlado. A proposta de Skinner envolve descrevemos melhor o que controla nossos comportamentos para assim planejarmos para nós mesmos um mundo melhor. Em outras palavras, produzir o que desejamos que seja produzido para nós mesmos.

Não satisfeito, Pinker tenta pintar Skinner como um verdadeiro torturador de animais. Mas ele ignora, provavelmente devido à sua falta de erudição acadêmica que insiste em aparecer, o fato de que os animais em seu ambiente natural nunca estão com seu peso total, aquele peso que podem adquirir com continua alimentação (Poling, Nickel, & Alling, 1990). Isso só ocorre em laboratórios e em alguns animais domésticos e reduzir em 20% seu peso não é fazê-los passar fome, mas estabelecer condições mais próximas do ambiente natural.

Por fim, Pinker tenta atacar o behaviorismo apelando para a liberdade humana“Mas não podemos fingir que somos capazes de remodelar o comportamento sem infringir de algum modo a liberdade e a felicidade das outras pessoas. A natureza humana é a razão de não entregarmos nossa liberdade nas mãos dos engenheiros comportamentais.” Entrando em explícita contradição consigo mesmo, inclusive mais à frente neste mesmo livro, como quando critica a ideia de alma e livre-arbítrio:

Não poderíamos esperar reduzir atos malignos instituindo códigos morais e legais, pois um agente livre, flutuando num plano diferente do das setas de causa e efeito, não seria afetado pelos códigos. Moralidade e lei não teriam utilidade. Poderíamos punir um transgressor, mas seria por pura vingança, pois a punição não teria nenhum efeito previsível sobre o comportamento futuro do transgressor ou de outras pessoas cientes da punição.
Por outro lado, se a alma for previsivelmente afetada pela perspectiva de apreço e vergonha ou recompensa e punição, ela não é mais realmente livre, pois é compelida (ao menos probabilisticamente) a respeitar essas possíveis conseqüências. Qualquer coisa que converta padrões de responsabilidade em mudanças na probabilidade de comportamento – como a regra “Se a comunidade pensar que você é um mal-educado por fazer X, não faça X” – pode ser programada em um algoritmo e implementada no hardware neural. A alma é supérflua.” (p.246)

Boniiiito, hein? Então quando você quer criticar o behaviorismo existe liberdade, quando quer defender seu ponto, não?

Sou obrigado a admitir que dos males esse é o menor. Não dá pra esperar coerência de alguém que, como vimos, inventa fatos, distorce citações, inventa citações, recorta criminosamente trechos para favorecer seu ponto, critica o que não leu (ou leu e tenta enganar seu público), tira ideias da cartola e atribui a seus oponentes, não pesquisa sobre o que afirma, não cita fontes, não traz dados, utiliza uma enormidade de falácias lógicas e faz malabarismos para desinformar seu leitor.

Senhoras e senhores, é por tudo isso aqui apresentado que concluo que Steven Pinker é um genuíno charlatão intelectual, com traços de um papagaio intelectual. Um híbrido, um exímio representante da espécie que pretendo continuar denunciando até levá-la próxima à extinção e que fez bastante por merecer o lugar de honra como o precursor dessa série. Palmas pra ele.



Notas:

[1] – Você pode encontrar respostas mais extensa às críticas de Chomsky nos artigos de MacCorquodale [link] e Palmer [link]

[2] - Adoraria discorrer sobre por que as ideias e explicações propostas por Pinker são muito ruins, insustentáveis, comparáveis a qualquer ficção a partir de alguns dados que não induzem às suas conclusões. No entanto, isso já ficou enorme para um post de blog e deixarei isso para um outra oportunidade, talvez com uma crítica mais ampla a algumas explicações cognitivistas e evolucionistas.

Referências Bibliográficas:

BATESON, P. The Corpse of a Wearisome Debate. Science, 297 (27),2212-2213, 2002

CARVALHO-NETO, M.B. B. F. Skinner e as explicações mentalistas para o comportamento: uma análise histórico-conceitual (1931-1959). Tese de doutorado, USP, 2001


CHOMSKY, N. Review of B.F. Skinner’s Verbal Behavior. Language, Vol 35. No. 1, 1959

CRUZ, R. Possíveis Relações entre o Contexto Histórico e a Recepção do Behaviorismo Radical. Psicologia Ciência e Profissão, 30 (3), 2010

HUNZIKER, M.H.L. (2001) O estudo do desamparo aprendido como estratégia de uma ciência histórica/ in Guilhardi, Hélio José, et AL; Sobre Comportamento e Cognição: expondo a variabilidade – Org. Hélio José Guilhardi. 1ª Ed. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, 2001. V.7

LOCKE, J. Ensaio acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Nova Cultural. 1988

MICHELLETO, N. Bases filosóficas do behaviorismo radical.  In BANACO, RobertoAlves et al. Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e terapia cognitivista. 1ª edição, Santo André, SP. Editores Associados, 2001

PINKER, S. Como a mente funciona – São Paulo, Companhia das Letras, 1998


PINKER, S. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana - São Paulo: Companhia das Letras, 2004

POLLING, A., Nickel, M., & Alling, K. Free birds aren’t fat: Weight gain in captured wild pigeons maintained under laboratory conditions. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 53, 423-424. 1990

SKINNER, B. F.. The behavior of  organisms. New York: Appleton-Century-Crofts. 1938

SKINNER, B.F. Para além da Liberdade e da Dignidade. Lisboa: Edições 70, 1974

SKINNER, B.F. Seleção por conseqüências.  Revista brasileira de terapia cognitiva e comportamental. Volume IX, 2007

SKINNER, B.F. Ciência e comportamento humano. 2ª edição – Editora Universidade de Brasília, 1970

SKINNER, B.F. Contingências de reforço: uma análise teórica. 2.ed – São Paulo: Abril Cultural, 1984.

SKINNER, B.F. Sobre o behaviorismo/ 10ª edição – São Paulo: Cultrix, 2006

75 comentários:

  1. "...genuíno charlatão intelectual, com traços de um papagaio intelectual." Adorei! Parabéns pela lucidez de análise!

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    1. esse tal "Pedro Sampaio" é o maior blefador que vi nos últimos tempos, ótimo para falar dos outros, incapaz de enxergar a si mesmo...

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    2. Muito obrigado, Maria Ester! Acho que provavelmente foi a primeira que leu o texto depois que postei! rs

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    3. desistiu de falar mal da psicnálise??? Projeto para tua vida: escrever uma auto crítica...

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    4. Não desisti não, lançarei um livro sobre isso. O que falei no blog é muito pouco perto do que já fiz a respeito.

      O curioso é que para você é falar mal da Psicanálise, para muitos analistas do comportamento eu falo bem até demais e resgato Freud.

      E minha auto-crítica é constante, mas críticas vindas de fora também são bem-vindas. O quê exatamente acha que devo melhorar e por quê?

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    5. Pedro Sampaio é um gênio, mas quem reconhece isso é apenas os caras do seu CÍRCULO de amizades... Por que será?

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  2. Excelente texto de um jovem pensador promissor! Parabéns Pedro, pela lucidez de análise. Eu diria que é um caso antológico, mas não destoa muito do que vemos cotidianamente e nas academias (graduações, mestrados e até doutorados...)

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    1. Fico muito lisonjeado! Espero corresponder às suas expectativas em um futuro breve. ;)

      Aliás, já teve tempo de ler minha monografia? Fiquei ansioso por um feedback seu.

      E concordo que muitos outros casos não passam longe desse. Já vi coisas como a que Pinker escreve até em manuais de Psicologia e livros introdutórios sobre a área...

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  3. Muito bacana o texto, Pedro. Li tudinho 'em um só fôlego'.

    Me lembrou que o primeiro contato q tive com o Pinker foi em 2000, quando estava na 3a fase da Psicologia na UFSC. Como vc disse, nenhum estudante fica sabendo de autores atuais, pq so estudamos historia da Psicologia. Eu cheguei ao Pinker por um artigo da Sci-Am, e me empolguei pq ele falava de Evolução, darwinismo, enfim, coisas que eu já sabiam que valiam a pena e no curso de Psicologia nunca se toca nesse assunto.

    Li "Como a mente funciona" em 2000 e aquilo me tornou um proto-cognitivista, ao ponto de rejeitar amplamente todo e qualquer estudo do behaviorismo. Eu até matava as aulas e nao lia os textos behecas. Saí da graduação sem nunca ter lido um livro sobre.

    Penso que nada disso teria acontecido se os professores behavioristas tivessem me esclarecido que tbm levam em conta a genética, a evolução, a subjetividade, a linguagem, etc. No lugar disso pareciam mais preocupados em ensinar o que é 'modelagem' e falar de ratinhos no LAB.

    E de fato ele é um autor de best-seller, escrevendo de uma forma atraente pra um graduando sem muito conhecimento ainda.

    Tá faltando um autor de best-seller behaviorista, não acha?
    Em todo caso, aguardando a parte sobre Daniel Dennett.

    OBS: Gostei do "zumbi Skinner" ;-)

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    1. Valeu, Alessandro! O texto ficou grande mesmo, né? rs Mas é que, já que é pra escrever, quis cobrir bem as críticas dele.

      Pinker de fato seduz muitas pessoas e concordo que muitos behavioristas contribuem com isso, pela simples omissão.

      Concordo que falta um behaviorista best-seller. Quem sabe não seremos nós? =P

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  4. Sabe o que seria legal? você colocar links para outras críticas ao Pinker já escritas mundo afora.

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    1. Tem razão. Eu só li a do Bateson e a do Schillinger, mas tenho certeza que devem ter outras.

      Seria uma compilação e tanto.

      Não fiz porque acho que a minha cobre bem os pontos que mais me interessam e por achar que não adiantaria muito, poucos iriam se dispor a ler.

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  5. Uuufffaaa.... pensei que num fosse acabar... o texto é enorme, mas vc tem um estilo de escrita que acaba envolvendo a mente do leitor de tal forma que acabamos não conseguindo controlar nossas vontades ou nossos desejos – advindos do fundo do nosso eu mais verdadeiro – e apresentamos comportamentos de sentar a bunda diante do pc e ler, ler.... rsss
    balelas, balelas, balelas...
    melhor não lê-las...
    mas se não as lermos com sabê-las? (paráfrase de um conhecido poema)

    Em todo caso, parabenizo-o pela iniciativa e, sobretudo, pelo fôlego! Não sei se terei fôlego para acompanhar as próximas publicações, mas com certeza indicarei aos meus “chegados”, rs.

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    1. Hahahahaha Já estou honrado só de ter lido até o fim!

      Obrigado pelos elogios, Neto. Mesmo se não ler as continuações, fico contente que ajude a divulgar, quebrando alguns mitos muito difundidos sobre o behaviorismo.

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  6. Olá Pedro,
    Excelente texto. Boa argumentação sobre aspecto de alta relevância científica e social. Faço votos para que a série continue!

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    1. Obrigado, Helder!

      Como disse, Dennett já está nos planos para a próxima e ainda tem mais um que tenho em mente. Mas aceito também sugestões!

      Abraço

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  7. Interessante o texto. Não sendo fã do Skinner nem do Pinker, apenas um curioso eventual a respeito da contribuição global de ambos, acho que poderia ser uma boa tentar remodelar a linguagem e formato de modo a fazer uma resenha ou crítica teórica e submeter a algum manuscrito de visibilidade em língua inglesa, que não seja refúgio específico nem de behavioristas nem de evolucionistas para avaliar a recepção da área e promover efetivamente a discussão acadêmica.

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    1. Pensei nisso, João. Acho possível que eu faça isso em um futuro breve. Modificá-lo, torná-lo mais acadêmico e publicá-lo. Alcançará um outro público e possivelmente levará a um debate - inclusive me submetendo a críticas mais refinadas que as que tenho recebido no blog.

      Boa sugestão.

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  8. Brilhante! Muito pertinente, muito bem argumentado, muito divertido!

    Como não gostar de um texto que concilia expressões em latim, "tergiverso" e "acelerar essa bagaça"? Hahahahaha

    Parabéns!

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    1. hehehehehe Que bom que gostou! Agradeço os elogios.

      Realmente, por ser um texto de blog, deixo a escrita mais informal, me divirto com ela. Ótimo saber que outros também se divertiram. rs

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  9. simplesmente rídiculo um blogueiro com toda essa pretensão achar que tem calibre para falar de um dos maiores psicólogos das últimas décadas

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    1. Especialmente para você, Anônimo:

      http://pedro-sampaio.blogspot.com.br/2011/07/autoridade.html

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  10. Excelente iniciativa! Excelente artigo. Estou compartilhando na minha rede de contatos.
    Parabéns!
    Abraço

    Maria Wang

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    1. Obrigado, Maria! Espero mesmo que ele sirva para elucidar algumas pessoas a respeito da improcedência de algumas críticas direcionadas ao behaviorismo.

      Abraço

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  11. Muito bom, Pedro! Parabéns pela paciência. Estou mega ansioso pelos próximos textos da série, hahahaha. Abração

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    1. Obrigado, Rodrigo! Como disse ao Helder, aceito sugestões de alvos! rs

      Abraço

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  12. Muito bom, Pedro! Você conseguiu ser muito claro, objetivo e, ainda por cima, acessível na linguagem, sem ser banal e superficial. Gostei demais!
    O cuidado com o uso das referências coloca seu texto num nível acima do que vejo em alguns blogs.

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    1. Muito obrigado, Luiz! Fico sinceramente contente com seus elogios.

      Apesar de ser um texto de blog é importante faze-lo bem feito, informar e argumentar com qualidade. Do contrário, seria dispensável.

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  13. Parabéns, Pedrão! Muito bom o seu texto! Se o Pinker tivesse de fato lido o Sobre o Beaviorismo, encontraria Skinner dizendo o seguinte, sobre a possibildade de a fisiologia vir a contribuir para a melhor explicação do comportamento:

    "Dizer que `a única base teórica possível para a explicação do comportamento humano deverá ser encontrada na fisiologia do cérebro e do sistema nervoso central', e que `a adoção dessa base necessariamente leva ao desaparecimento da Psicologia como uma ciência independente', implica também em descuidar a possibilidade de uma ciência do comportamento e daquilo que tem a dizer acerca dos sentimentos e dos estados introspectivamente observados. [...] A Promessa da Fisiologia é de tipo diferente. Novos instrumentos e novos métodos continuarão a ser ideados e eventualmente chegaremos a saber mais acerca das espécies de processos fisiológicos, químicos ou elétricos que ocorrem quando uma pessoa age. O fisiólogo do futuro nos dirá tudo quanto pode ser conhecido acerca do que está ocorrendo no interior do organismo em ação. Sua descrição constituirá um progresso importante em relação a uma análise comportamental, porque esta é necessariamente `histórica' – quer dizer, está limitada às relações funcionais que revelam lacunas temporais. Faz-se hoje algo que virá a afetar amanhã o comportamento de um organismo. Não importa quão claramente se possa estabelecer esse fato, falta uma etapa, e devemos esperar que o fisiólogo a estabeleça. Ele será capaz de mostrar como um organismo se modifica quando é exposto às contingências de reforço e por que então o organismo modificado se comporta de forma diferente, em data possivelmente muito posterior. O que ele descobrir não pode invalidar as leis de uma ciência do comportamento, mas tornará o quadro da ação humana mais completo." (SKINNER, 1974)

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    1. Exato! Ótimo trecho esse, carimbando novamente a imprudência e inaplicabilidade das críticas do Pinker.

      E, novamente, obrigado pelo elogio!

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  14. Muito bom Pedro!
    Continue a série pois ficou muito massa.

    Difícil imaginar onde está o limiar entre o Pinker "papagaio" e o Pinker "charlatão". Provavelmente muitas das coisas que ele escreve/fala é mera repetição de críticas recorrentes ao behaviorismo no meio acadêmico (suspeito que no caso do Pinker tem muita papagaiada em cima do que, por exemplo, o Chomsky publicou).

    Mas tendo em vista o modo como ele constrói sua argumentação, me parece que o lado charlatão, pelo menos neste caso, prevaleceu muiiiiito!

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    1. Valeu, Ramon! Viu que te mencionei no texto, né? rs

      Tenho uma impressão similar. Talvez inicialmente ele tenha apenas repetido as coisas que ouvia e com o tempo se tornou um papagaio exemplar. A partir daí, começou a ter de sustentar sua posição, começou a endossa-la em livros e outros e então iniciou-se sua empreitada no charlatanismo.Parece que pra ele valia mais ser desonesto e manter sua posição do que ter de rever seus conceitos.

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  15. É aquela velha estratégia, como você aludiu, de denegrir forçosamente a imagem de alguém para se superar. Pinker tinha que caricaturar alguém ou alguma escola, e ele acabou optando pelo behaviorismo. Como esta escola declinou com a entrada do cognitivismo, e como os defensores desta última são papagaiosamente instados a crer que eles superaram os behavioristas, as palavras de Pinker acabaram caindo como uma luva na mente dos que estão na vanguarda. E as coisas crescem como uma bola de neve.

    Trabalhos como este servem para desconstruir muito do que lemos por aí. Há muita, muita gente desinformada e ludibriada... e você sabe que eu já fui um deles. Topa erguer das cinzas o behaviorismo? Sei que você está nessa comigo, mas eu intuo que ainda teremos que aprender algumas coisas com os cognitivistas. Não sejamos preconceituosos, certo?

    Abraço, meu amigo!

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    1. Pois é, Daniel. Como aponta o biólogo que menciono, a tese central do livro já é bastante questionável. Daí ele começa a inventar inimigos, criar espantalhos deles e atacar.

      Mas já há algum tempo que ele vem falando non sense sobre o behaviorismo. Parece até haver um rancor pessoal ali, tamanha sua voracidade e adjetivação. E como vc bem apontou, muitos papagaios formam a revoada que vai propagando essas coisas. Conhecemos um bocado deles, não? Até aqueles que se acham o supra-sumo do ceticismo, da honestidade intelectual e pensamento crítico. rs

      E certamente estou disposto a aprender com quem for, inclusive com cognitivistas. Sou um crítico ferino, mas duvido que alguém possa me acusar de ser dogmático, fechado.

      Abraços

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  16. Pedro Sampaio, você também é de uma espécie rara: a de bons escritores na internet.

    Embora um curioso, sou leigo nos assuntos que trata. Mesmo assim seu ponto me parece inapelável e a maneira habilidosa com que conduz o leitor pelo texto certamente ajuda no convencimento.

    Parabéns pelo texto e pelo blog. Escreva com mais frequência.

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    1. Muito obrigado, Léo! Faz muito bem ler esse tipo de coisa, ainda mais por eu ter pretensões de tornar a escrita uma de minhas principais atividades em um futuro não muito distante. rs

      Fico contente também que, mesmo vc se dizendo leigo, tenha compreendido minha argumentação. Considero que meu objetivo foi cumprido.

      Sobre escrever com mais frequência... rs. Tentarei, mas já acho um pouco mais difícil. Se eu conseguir um texto por mês, estarei contente. Mas vou tentar aumentar isso.

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  17. Vejo que você precisa de heróis e heróis precisam de vilões. Não por acaso você elegeu o vilão da vez Steven Pinker, mas me lembro de Jung “Tudo o que incomoda mos outros pode nos levar a uma compreensão sobre nós mesmos.". Não gosta de Pinker, tudo bem, mas o chamar de charlatão e colocar como estrado para teu argumento a critica que ele fez do behaviorismo radical é um pouco desonesto da sua parte. Como se o Behaviorismo fosse o corolário de verdade libertadora. Então, Pinker abre sua série porque critica de modo rasteiro o behaviorismo. Pobre? Talvez, mas desonesto? Poderia também te chamar de desonesto pela visão inebriada que você faz da psicologia evolucionista e do cognitivismo, pela sua posição servil frente a Skinner (ciência séria tem guru?) e pelo seu jeito pinkeriano de escrever. Isso sem supormos, conforme qualquer teórico sério o faria,que a defesa do contrario ao principio que defende pode estar correta, pois se assim estiver seu texto perde qualquer possibilidade de argumentação lógica. E você não apresenta esta defesa, apenas acusa. E nessa celeuma que você criou e se apresenta como justiceiro, não vence que esta certo, mas quem tem a melhor oratória. Como é fácil refutar um texto manipulando suas partes para que se encaixe nos contra argumentos que quero reproduzir.Sim Pedro você só reproduz, um papagaio também, de Skinner.

    O Brasil já foi chamado, junto com Argentina e França, do ultimo feudo da psicanálise. Mas este povo apenas de tirano e você parece ingenuamente adotar este regime.Como o ministro do STF Joaquim Barbosa disse ao também ministro Gilmar Mendes “saia a rua!” como forma de demolir seu trono imaginário lhe digo: Saia a rua! Que sabe assim você acorde de sua infantil ilusão de querer extrapolar para o mundo apenas o que você discute nos seus clubinhos.

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    1. "Não gosta de Pinker, tudo bem, mas o chamar de charlatão e colocar como estrado para teu argumento a critica que ele fez do behaviorismo radical é um pouco desonesto da sua parte."

      Acredito ter justificado bem o por que é legítimo chamá-lo de charlatão. Se discorda, me aponte o porquê.

      "Como se o Behaviorismo fosse o corolário de verdade libertadora."

      Não vejo como uma coisa tem a ver com a outra, além de não pensar assim e sequer insinuado algo similar no texto. Se o fiz, me aponte.

      "Poderia também te chamar de desonesto pela visão inebriada que você faz da psicologia evolucionista e do cognitivismo, pela sua posição servil frente a Skinner (ciência séria tem guru?) e pelo seu jeito pinkeriano de escrever. "

      Você entrou em contradição nessa frase, pois diz que eu não poderia chamar Pinker de desonesto, mas enumera o "jeito pinkeriano de escrever" como um de meus atributos que caracterizam desonestidade.

      Mas não apresento visão da psicologia evolucionista ou cognitivista neste texto. Aliás, tenho até uma nota justificando por que não as abordarei. A única forma de psicologia que critico em meu texto é a psicologia popular.

      Também não vejo servilidade nenhuma em relação a Skinner, tampouco colocá-lo como guru. Apontar que o autor que dá título ao texto fala bobagens sem fim sobre outro autor é colocar este último como guru?

      "Isso sem supormos, conforme qualquer teórico sério o faria,que a defesa do contrario ao principio que defende pode estar correta, pois se assim estiver seu texto perde qualquer possibilidade de argumentação lógica. "

      Não entendi bulufas dessa frase. Provavelmente porque não sou um autor sério.

      "Como é fácil refutar um texto manipulando suas partes para que se encaixe nos contra argumentos que quero reproduzir.Sim Pedro você só reproduz, um papagaio também, de Skinner."

      Eu trago as referências bonitinhas do que estou refutando e tal, pode ir lá conferir e ver se procede. Um papagaio intelectual não faz isso, mas o seu oposto: ouve dizer algo e sai reproduzindo.
      Você tenta construir uma frase de efeito, mas ela simplesmente não se sustenta.

      "como forma de demolir seu trono imaginário lhe digo: Saia a rua! Que sabe assim você acorde de sua infantil ilusão de querer extrapolar para o mundo apenas o que você discute nos seus clubinhos."

      E o que você acha que eu encontraria "na rua" que tenho ignorado?

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  18. O autor do texto em questão fez um excelente trabalho resgatando recortes do texto do Pinker, etc. Suspeito que os anônimos sequer leram Pinker, ao contrário estariam contrapondo as críticas apontadas pelo Pedro, ao invés de utilizarem falácias ad hominem para desvalorizar sua escrita. Uma pena que nossa academia não nos prepare para discussões e embates teórico.

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    1. Obrigado pelo elogio, Rodrigo. E concordo com o que aponta.

      É digno de estudo também o estranho fenômeno de que sempre, SEMPRE, 90% ou mais dos críticos são anônimos.

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  19. Tenho que confessar que a primeira vez que li o Pinker fiquei empolgado. O problema é que eu era jovem demais e tive meu primeiro contato com muitas matérias da faculdade através da sua leitura. Querendo ou não isso gera um preconceito. O que noto é que as teorias que ele apresenta como leis sao repletas de lacunas que ele preenche com retórica. Muitas vezes essa retorica serve para tirar o foco do problema.E o problema é que ele nao tem uma teoria cientificamente embasada, mas uma hermenêutica de costuras e retalhos das obras de Darwin, Dawkins, John Tooby e Leda Cosmides com a pretensão de ser original. Se nao me engano, seu primeiro livro "O Instinto da Linguagem" padece dos mesmos erros e estrategias. Parabéns pelo texto.

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    1. Obrigado, Renato!

      Nunca li o "O Instinto da Linguagem", mas pretendo.

      Sobre as teorias pinkerianas, também me parecem insustentáveis e pretendo abordar isso mais minuciosamente em outro texto.

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  20. Estou surpreso com o texto, positivamente surpreso. Bem feito, bem argumentado. A princípio passa um ar petulante e, cansado de ler textos de jovens precipitados em blogs, é natural levantar nossa desconfiança. Não sei sequer se você é jovem ou não, mas a maioria dos blogueiros são.

    De qualquer forma, utiliza um adjetivo pesado desde o título do texto, que coloca um pesado ônus de prova sob você, porém demonstra ser capaz de justificar sua aparente afronta.

    Pressupondo que de fato Pinker disse tudo isso (não fui conferir nos livros dele, mas me parece correto), você acaba de faze-lo, aos meus olhos, um verdadeiro "charlatão intelectual" mesmo. Independente da qualidade de seus demais trabalhos, é simplesmente indesculpável o que você denuncia. E pessoas assim, dispostas a serem desonestas aqui e acolá para consolidarem suas ideias, são o maior mal que há para a ciência, merecendo mesmo serem expostas ao ridículo, como fez aqui.

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    1. Obrigado pelos elogios, Luis.

      Concordo: não há nada pior para a ciência do que esses tipos. Espero que mais pessoas unam esforços aos meus para expormos cada vez mais essas pessoas.

      Abraço

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  21. Perfeito.
    Merece divulgação internacional.

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    1. Obrigado, Aline!

      Atendendo algumas sugestões acima, pretendo tornar o linguajar dele menos informal, traduzir para o inglês e enviar para um periódico de lá. Quem sabe não consigo repercutir por lá também?

      Abraço

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  22. Excelente, Pedro Sampaio.
    Iniciei meus primeiros passos na AC, enquanto acadêmico de Psicologia, há pouco mais de 6 meses, entretanto, a cada novo artigo, a cada novo blog e a cada nova personalidade que vejo argumento, acredito que minha escolha não poderia ser melhor.
    Esse tipo de crítica bem fundamentada é verdadeiramente inspiradora.
    Parabéns!

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    1. Muito obrigado, Walison!
      Fico contente ao ler suas palavras.

      Espero que este e outros textos sirvam para refinar nosso senso crítico, estimular nossa fome por uma honesta busca por conhecimento e aprimoramento da Psicologia.

      Abraços

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  23. Quem critica Pinker é desnutrido de ideias.

    Simplesmente porque Pinker diz coisas que não coadunam com as crenças ideológicas (nem chamarei de cientificas) deles.

    Como dizia Schopenhauer:

    A verdade passa por 3 etapas:

    1- É ridicularizada;
    2- É combatida com violência.
    3- É tida como a própria evidência.


    O livro "Como a mente funciona" possui alguns equívocos de abordagem que em nada remete a charlatanismo ou pseudociência, qualquer individuo que possua a mente aberta para conhecer as ideias dos outros vai tirar excelentes insights do livro.

    È bom lembrar que os marxistas são behavioristas, e como bem sabemos, a turma da esquerda é tão fundamentalista quanto um vegan ou religioso.

    Então eles vão criticar levianamente, tentar desqualificar simplesmente porque ele mela as ideias que sustentam as ideias behaviorisras da esquerda.

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  24. Do fato dele ter cometido equívocos ao comentar o behaviorismo não se segue que sua psicologia seja errada. Simplesmente porque sua psicologia não precisa do behaviorismo para se sustentar.

    Eu quero que você, ao chamá-lo de charlatão, indique erros que ele comete em suas próprias ideias sobre sua psicologia. Para fazer isso você primeiro tem de conhecer biologia, coisa que eu duvido que conheça.

    Bom, já que você quer ainda estudar psicanálise, comece lendo "Imposturas Intelectuais",livro que arrebenta com os defensores dessa porcaria sem nenhuma embasamento científico.

    Aproveite e procure saber o porque da psicanálise não se sustentar 4 minutos frente aos problemas levantados pela filosofia analítica.

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  25. Ultimamente tenho estudado uma pesquisadora singular, a psicóloga americana Judith Rich Harris. Ela é especialista nos estudos sobre o desenvolvimento infantil, mais particularmente investigando a personalidade. Especialistas sobre este assunto existem muitos, mas sua singularidade se marca pela coragem em quebrar paradigmas arraigados nesta área.

    Apesar de ter concluído o seu mestrado na aclamada universidade de Havard em 1961, quando publicou um artigo na Psychological Review e na sequência o livro "Diga-me com quem anda...", não era docente de nenhuma universidade, porém nas próprias palavras de um dos maiores expoentes no assunto, o psicólogo e especialista em psicolinguística Steven Pinker - autor de "Tábula Rasa", entre outros -, confidenciou: "Há três anos, um artigo publicado na Psychological review mudou para sempre a minha maneira de ver a infância e a criança".

    As proposições de Harris se concentram a partir dos inquietantes estudos sobre o inato e o adquirido. Ou seja, quanto do que sabemos e fazemos vêm como herança genética ou são adquiridos pelas experiências que passamos ao correr da vida, principalmente na infância.

    O senso comum - pensamento popular-, é sempre propenso a atribuir as qualidades de uma pessoa ao inato (a questão do dom, do talento nato, da vocação divina...). Já a ciência se opõe às inferências simplistas, a ponto de em determinado período da história, a ciência estar propensa a apenas validar o que a experiência (empírica) poderia explicar.

    Os estudos em psicologia apesar de não descartar alguma contribuição genética, seguindo o curso da história da ciência, acabou sendo influenciada e voltando suas atenções aos estudos do comportamento, estabelecendo a corrente Behaviorista de estudos psicológicos.

    Segundo a própria Harris, a crença básica do Behaviorismo é: "a de que as crianças são maleáveis e que é o meio delas, e não as qualidades inatas tais como o talento e o temperamento, que determina o seu destino".

    Sendo assim, para os behavioristas clássicos, adeptos das ideias de John B. Watson, ao se controlar o meio é possível moldar as crianças de modo a formá-las como se bem quiser, ou seja, condicioná-las, treiná-las a ser o que os outros (a sociedade) querem e ou esperam.

    Já B. F. Skinner, formulador de um behaviorismo mais promissor, não foge destes preceitos, mas valoriza as questões do reforço positivo ao invés do condicionamento.

    Desse modo, a personalidade para os Behavioristas (ainda mantendo relação com a teoria Freudiana) partem da crença, segundo Harris, de que os pais influenciam o desenvolvimento de seus filhos por meio de recompensas e dos castigos que distribuem.

    Este pensamento foi ampliado para professores e treinadores autoritários. Logo, estes seriam os principais responsáveis por moldar (formar; manipular; adestrar...) os alunos e jogadores como bem queriam e, como já mencionei, como a sociedade esperava.

    Isto explica também mais uma vez como se formou o método tecnicista, não só no esporte, mas em todas as searas formativas. Ou mesmo como se arraigou este autoritarismo de professores, militares, treinadores, ou qualquer líder que deixa sua liderança advir mais do inconsciente do que da ação consciente e calculada a partir dos estudos sobre gestão de pessoas.

    Contudo, voltando aos estudos de Judith Harris, sua contribuição foi a de exatamente mostrar que estas pessoas, em especial os pais, não têm este poder todo que os Behavioristas acreditam no que tange a formação das crianças.

    O mesmo se pode dizer sobre a genética (o inato), pois Matt Ridelly, autor do livro "O que nos faz humanos", afirma que: "Os genes não restringem a liberdade humana - eles a possibilitam". Ou então, segundo o especialista em genética do comportamento da Universidade Federal de Santa Catarina, o professor André Ramos: "A genética não é um destino, não determina o que você vai ser.Ela oferece predisposições".

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  26. Se as teses do Pinker estão erradas, cumpre exatamente refutá-las, coisa que o autor não fez.


    Escrever um post acusando Pinker de usar de "argumentum ad populum" para sustentar várias de suas teses e, ao mesmo tempo, escrever uma peça que, desde o título, apela para o "ad hominem", sinceramente, não me parece uma postura muito objetiva e distanciada.

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  27. psicanálise não é ciência

    "tipicamente o desprezo (ou até a aversão) que o indivíduo tem pela lógica é inversamente proporcional ao domínio que ele tem da mesma."GG

    A análise lógica da estrutura das teorias científicas - empreendida no início do século XX por alguns filósofos da ciência - situou a origem dos problemas da psicologia na linguagem. Os termos com os quais são construídas as teorias psicológicas derivam da linguagem comum (folk psychology ou psicologia popular, termo cunhado por Dennett em 1981) o que os torna vagos e imprecisos.
    Mas que tipo de vagueza e imprecisão é essa? Por que não podemos considerar a psicologia uma ciência exata? O ideal de uma ciência exata é relativamente recente na história do pensamento ocidental. Exatidão e precisão são cânones para o conhecimento científico que surgem com o projeto de matematização da natureza iniciado pela física moderna no século XVII, tendo como protagonistas Galileu e, mais tarde, Newton. Matematização da física significa aplicação de equações matemáticas para descrever o movimento dos corpos físicos, o que resultou na consolidação da mecânica clássica - o conjunto de equações que descrevem o movimento dos corpos que aprendemos na escola secundária. Essas equações não só descrevem o movimento dos corpos como também possibilitam predições sobre esses movimentos.
    A psicologia dificilmente consegue fazer predições exatas do comportamento humano como o faz a mecânica celeste, mas, talvez apenas algumas aproximações indutivas. Uma possível razão para isso seria o fato de não sabermos se os termos que ela emprega tais como: ansiedade, assertividade, inveja, etc possuem referentes no mundo. Ou seja, ao utilizar essa terminologia na construção de teorias, o psicólogo não sabe muito bem do que ele está falando: de coisas que existem no mundo ou de ilusões criadas pela sua própria linguagem. Já num de seus primeiros escritos (1969), Dennett percorre esse problema, fazendo notar que não é possível que a descrição da ação humana, que contém termos mentais, seja reduzida a uma descrição física (com referentes definidos), ou seja, que ela seja feita prescindindo de um vocabulário psicológico específico, os chamados “termos intencionais”.
    Termos intencionais caracterizam-se pela sua intensão (com s) e os não-intencionais e toda lógica que rege as ciências naturais são caracterizados pela extensão. A extensão de um termo é a classe das coisas às quais o termo se refere, ao passo que a intensão se refere ao significado de cada elemento tomado individualmente. Por exemplo, o termo “Vênus” refere-se à “Estrela da manhã”, “Estrela da tarde” e “o segundo planeta mais próximo do sol”. Cada um desses termos apresenta diferentes intensões ou significados, os quais não podem ser captados pela linguagem das ciências naturais.
    Outro exemplo típico1 da distinção entre intensão e extensão encontramos na peça teatral Édipo Rei de Sófocles. Consideremos as seguintes proposições:

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  28. A: Édipo casa-se com Jocasta
    B: Édipo deseja que Jocasta se torne sua esposa.

    No caso de “A” podemos substituir o termo “Jocasta” pelo termo “a mãe de Édipo” e o valor de verdade da sentença (isto é, se ela é verdadeira ou falsa) continuará sendo o mesmo. Neste caso temos:

    A’ – Édipo casa-se com a mãe de Édipo.
    O valor de verdade de A e de A’ é o mesmo.

    Tomemos agora a sentença B e substituamos o termo “Jocasta” pelo termo “a mãe de Édipo”. Neste caso, teremos a sentença:
    B’ – Édipo deseja que a mãe de Édipo se torne sua esposa.

    B e B’ não têm o mesmo valor de verdade. Aliás, é precisamente por isto que a vida de Édipo tornou-se trágica. “Jocasta” e “a mãe de Édipo” são termos que designam a mesma coisa no mundo, mas o valor de verdade é alterado: “Jocasta” e “a mãe de Édipo” são modos diferentes de representar uma mesma coisa no mundo. A representação alterou o valor de verdade de B’. Édipo jamais poderia admitir que desejava casar-se com sua mãe, mas admitiria que desejava casar-se com Jocasta – embora “Jocasta” e “mãe de Édipo” designem a mesma coisa no mundo. Quando uma situação deste tipo ocorre, temos um contexto opaco ou um contexto intensional (com s). Aliás, se Édipo soubesse que “Jocasta” e a “mãe de Édipo” designavam a mesma coisa, não teria havido tragédia e ele não teria tido que arrancar seus olhos.
    Todo o edifício teórico da psicologia parece estar erguido sobre estes termos intencionais que permeiam suas diversas teorias: apego, assertividade, instinto, ciúmes, etc e outros termos que não têm uma referência precisa no mundo, ou seja, não designam um conjunto preciso e finito de comportamentos e atitudes, o que torna o discurso psicológico sempre contaminado pela vagueza. Sua determinação depende sempre do contexto onde eles/elas ocorrem. Por outro lado, no caso das ciências da natureza, a referência, ou extensão dos termos seria sempre determinável – mesmo no caso de objetos que talvez nunca possamos observar, como é o caso dos átomos e seus componentes. A psicologia parece então enfrentar um grande paradoxo: para se adaptar ao método científico e se tornar efetivamente uma ciência do psiquismo é preciso que ela exclua de seu escopo a experiência subjetiva e as expressões intensionais- com S mesmo, ou seja, aquilo que mais acentuadamente constitui sua trama discursiva.
    João Teixeira - A mente segundo Daniel Dennett

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  29. O que são expressões intenSionais?

    Uma expressão intensional é uma expressão que, quando ocorre em uma sentença, faz com que os termos da sentença não possam ser substituídos por termos co-extensionais preservando-se a verdade da sentença. Geralmente expressões intensionais são expressões que designam relações, mas nem toda expressão que designa relações é intensional. Por exemplo, a expressão "maior que" coloca dois termos em relação, compondo sentenças da forma "x é maior que y". Quaisquer que sejam os termos que possamos colocar no lugar de "x" e "y", se assegurarmos que os termos são sempre co-extensionais, então asseguramos que a proposição resultante terá sempre o mesmo valor de verdade: substituamos "x" por "Sol" e "y" por "Terra", por exemplo. Teremos a proposição verdadeira "O Sol é maior que a Terra". Agora, continuaremos tendo uma proposição verdadeira mesmo que no lugar de "x" coloquemos "O astro que ilumina a Terra" e no lugar de "y" colocarmos "O planeta de origem dos seres humanos", por exemplo. Contanto que fique garantida a substituição de "Sol" e "Terra" por termos que também designem o Sol e a Terra, fica garantida a verdade da proposição resultante. Não é o que acontece com expressões intensionais. Um exemplo de expressão intensional é "acredita que", com a qual formamos sentenças como "x acredita que P" (onde "P" designa alguma proposição), por exemplo: "Pedro acredita que o Sol é maior que a Terra". Aqui, se substituirmos "o Sol é maior que a Terra" por "O astro que ilumina a Terra é maior que o planeta de origem dos seres humanos" não temos garantias de que a proposição resultante será verdadeira, mesmo que a proposição inicial seja. É perfeitamente possível que uma seja verdadeira e a outra falsa, o que não ocorre com as expressões extensionais.

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  30. HEY! Eu uso esse termo "charlatões intelectuais!" Hahaha Vou ler o texto agora, só quis frisar isso antes que eu me esquecesse.

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  31. Caro Pedro, eu também tive a paciência de ler o livro de Steven Pinker e considero sim um ótimo livro e bem esclarecedor. Está bem claro que a mente humana é mais emocional do que racional. Por que você acha que publicitários e políticos desonestos conseguem enganar multidões? Pinker explica muito bem isso. Quanto a teoria ridícula da tábula rasa, basta estudar um pouquinho os quatro temperamentos humanos que ela não resiste ao tempo que se leva tomando uma taça de vinho.

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  32. Cara, que massa, não sou Estudante de Psicologia, acho que por isso gostei do livro "Tabula Rasa" do Pinker, mas é bom saber essas coisas.

    Você poderia me recomendar o livro do Skinner mais importante e esclarecedor para quem vai ler pela primeira vez?

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    1. Olá, Wender!

      Fico feliz em saber que gostou!
      Desculpe a demora para responder, estava sem olhar o blog há algum tempo, mas devo retomar as atividades nele em breve.

      Recomendo bastante que comece pelo Ciência e Comportamento Humano e depois parta para o Sobre o Behaviorismo.

      Abraço

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  33. Iniciei a pouco minha graduação em Psicologia e gostei muito do seu blog.Você pretende postar novos conteúdos?

    A recomendação que você deu ao colega Wender Kenny também se aplica para mim que estou iniciando o curso, ou é melhor iniciar em outras leituras?

    Abraços.

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    1. Olá, Vinícius!

      Como disse ao Wender, acima, pretendo sim retomar as atividades no blog em breve. Durante a Copa terei mais tempo e vou tentar escrever algumas ideias que tenho aqui. O problema é que o escrever concorre com outro escrever, o de produzir artigos e submeter a periódicos, algo que estou começando a investir agora.
      Mas acho que vai dar para conciliar.

      Sobre os livros, sim, endosso a recomendação. Poderia dar recomendações mais específicas de acordo com seu interesse e conhecimento, mas estes traçam as bases para uma ciência do comportamento. Você vai ouvir muita bobagem sobre behaviorismo ao longo do curso, então também recomendo que tenha em mãos o Behaviorismo Radical: Crítica e Metacrítica, do Kester Carrara.

      Abraços

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  34. Interessante, sua motivação e fundamentalismo parece invisível para quase todos, mas para quem realmente entendeu na prática o que Pinker descreve na essência em seu livro como a Mente Funciona,uso aqui o raciocínio lento e analítico e percebo seus preconceitos que deram motivação à sua idéia de escrever este texto:
    - 1) Seu sistema de crenças (provavelmente religioso o que geralmente é mais "gritante" nas pessoas) não aceita conscientemente ou mesmo inconscientemente as teorias tão racionais de Pinker;
    2) Sua tendência anti-behaviorista ou talvez sua posição antagônica à teoria de Pinker, baseada em seu "egocentrismo teórico pessoal" também "afeta" seu discernimento na avaliação deste autor, nesse momento o aspecto competitivo "bate" forte;
    3) A Averiguação destes pontos que coloquei, podem ser conferidos pelo uso dos termos "Charlatões Intelectuais" , "Charlatões e papagaios" , "papagaios intelectuais" , "mentiras muito difundidas" , bem sem continuar a transcrever seus ataques contínuos , que me constam como contraproducentes, pois se realmente você tivesse em mãos uma teoria mais evoluída e precisa, não precisaria de uso de ataques torpes ao pensamento alheio, bastava demonstrar o teu pensamento em boa linguagem para o seu público alvo e exemplificar os seus conceitos que por si só suas novas teorias poderiam fazê-lo crescer honrosamente e com coerência.
    Resumindo meu ponto de vista e análise dos fatos, se sua teoria fosse tão boa e/ou melhor , não precisaria levantar a "bandeira" da agressão, mas simplesmente provar o brilhantismo de suas teorias, pois tentar subir em sua carreira como psicólogo "pisando nas teorias" dos demais não faz de você melhor que ninguém, muito pelo contrário.

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  35. Ao pesquisar sobre psicanálise, encontrei este blog. E o que é fascinante é a necessidade de o autor mostrar que se superioriza, ou apresenta a verdade, em relação a determinada pessoa (Pinker neste caso, psicanalistas noutro texto que li), a qual representa a mentira ou a falsidade.

    É pena. Poderia ser interessante discutir as teorias de Pinker de forma crítica, mesmo que não concorde com elas, o que é algo que não faz, pois preocupa-se demasiado em pessoalizar e atacar.

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  36. E a foto no fim... Você apanhou o Pinker?! Quanta arrogância!

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  37. Talvez você até tenha lido mesmo a obra do Pinker, porém duvido que você o tenha realmente compreendido. Suponho que você não aceite a evolução como explicação satisfatória à origem das espécies. Caso aceite, no mínimo nunca a compreendeu.

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  38. Muito bom ter lido só os comentários! Comecei a ler o artigo e logo percebi que era bobagem, mas ao ler os comentários do "Anônimo" achei que valeu a pena ter me detido por aqui.

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  39. Olá Pedro! Achei muito interessante seu texto. Entendo que por ser um texto de blog você tenha a liberdade para adjetivar como quiser, mas recomendo-lhe um respeito aos autores que deseja criticar, como inclusive uma forma de ética academica, evitando que você caia no mesmo erro de simplificação que você explicitou. E lembro que não é por partirem de premissas epistemologicas e ontologicas diferentes que uma ou outra linha teórica podem ser melhores do que outra. Acho importantissimo verificar a consistência dos argumentos, como você fez, mas também uma análise histórico-filosófica das bases dos conceitos e teorias que sustentam. Parabens! Abracos

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  40. Olá Pedro! Achei muito interessante seu texto. Entendo que por ser um texto de blog você tenha a liberdade para adjetivar como quiser, mas recomendo-lhe um respeito aos autores que deseja criticar, como inclusive uma forma de ética academica, evitando que você caia no mesmo erro de simplificação que você explicitou. E lembro que não é por partirem de premissas epistemologicas e ontologicas diferentes que uma ou outra linha teórica podem ser melhores do que outra. Acho importantissimo verificar a consistência dos argumentos, como você fez, mas também uma análise histórico-filosófica das bases dos conceitos e teorias que sustentam. Parabens! Abracos

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  42. Amigo falar sobre Charlatões intelectuais antes de citar um é manipular a informação a favor do seu ponto ...O que torna a temática do seu texto, ao meu ver, paradoxal e muito triste de se ler (parei no meio)

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  43. Acho desnecessária essa desqualificação sobre Pinker. Enfim, não quero chover no molhado dando dicas sobre como deve ser um texto crítico em ciência, porque acho que o blogueiro sabe muito bem. O que entristece é esta passionalidade que muitos psicólogos prós-graduados demonstram quando criticam teóricos com quem não se identificam. Eu li o Tábula Rasa e achei interessante e provocativo, sobretudo por abordar diversas dicotomias históricas na psicologia e nas ciências sociais. Charlatão? Não tenho como julgar se Pinker quer enganar as pessoas, ou ser alguém que ele não é, mas eu considero um autor comprometido com a epistemologia que defende. Não acho que os "ataques" que ele faz ao behaviorismo ou ao culturalismo rasos, eles são pertinentes e bem articulados. Enfim, é uma pena que um professor universitário produza um texto tão longo e trabalhoso de maneira tão ideológica. Tinha potencial para ser um bom texto.

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