terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Quem Servimos de Fato?



Li recentemente um artigo do Botomé chamado “A Quem Nós, Psicólogos, Servimos de Fato?”. Este artigo foi publicado em 1979, procurando responder a pergunta-título e, para isso, trouxe dados de pesquisas e questionamentos autocríticos. Esse artigo ficou bastante conhecido e é muito lido, principalmente pelo pessoal da chamada “Psicologia Social”, por denunciar o incontestável elitismo da Psicologia, cujos serviços apenas uma pequeníssima parcela da população pode pagar.

O “elitismo” da Psicologia (uma maneira grosseira de sintetizar o problema do acesso aos serviços de Psicologia, apontado por Botomé) é, sem dúvida, algo ainda presente e pertinente de ser debatido. Mobiliza-me mais, no entanto, outra forma de elitismo, também abordada por Botomé: um elitismo intelectual.

A Psicologia tem favorecido um hermetismo que é inimigo do conhecimento, sendo importante aprimorar a Psicologia  para que os conhecimentos psicológicos possam servir às pessoas, não apenas mostrar nossa erudição.

Procuro trabalhar nesse sentido. O meu grande interesse por epistemologia, filosofia e outros, está diretamente relacionado com essa questão. É importante combater tudo que tem freado a produção de conhecimento em Psicologia e procurar divulgar e expor a debates nossas teorias e práticas, para serem adotadas, criticadas e aprimoradas. Se na comunidade científica, de modo geral, isso é de praxe (ela serve justamente de audiência crítica para qualquer teoria ou hipótese e responsabiliza-se por este crivo), na Psicologia há a defesa de uma pluralidade que, embora em alguns contextos e sentidos possa ser positiva, beira a prostituição intelectual.

Há um “não me toque, gosto muito de minhas teorias e é arrogância de sua parte criticá-las” na Psicologia que não é encontrada na maioria das demais ciências. Mas teorias não podem ser blindadas.

Têm sido usadas duas principais estratégias para blindar as teorias psicológicas. A primeira delas é moral, e qualquer semelhança do “devemos respeitar outras teorias”, para blindá-las de críticas, com o “devemos respeitar as crenças religiosas de outrém”, não é mera coincidência. Essa é simplesmente uma das melhores formas que idéias ruins acham para se justificar e prosperar.

A outra é o hermetismo. Encher sua teoria de conceitos, referências a filósofos, antropólogos, físicos e matemáticos que dificilmente estudantes de Psicologia terão condição de perceber o charlatanismo ali. Dá um ar erudito e ainda cria sentenças sujeitas a múltiplas interpretações, passíveis de justificarem muitas coisas diferentes, frequentemente opostas. Estas duas estratégias são as marcas de uma ideia ruim, inimiga do conhecimento

Então, afinal, a quem de fato servimos? Nossa própria vaidade, pelo jeito. Utilizar a Psicologia apenas para pavonear-se, ganhar dinheiro ou prestígio, não nos torna menos charlatões do que astrólogos, quiromancistas, videntes e até políticos corruptos. Afinal, é o dinheiro dos impostos que propicia que estudemos, e não dar um retorno à população deste seu dinheiro é o mesmo que manté-lo apenas para seus interesses. E atender na clínica, um ambiente facílimo para inventar mal-estares e “aprofundar” anos a fio neles, não quer dizer absolutamente nada. Não só a clínica, como universidades e até pesquisas, por vezes são apenas instrumentos desta improdutiva desonestidade (geralmente inconsciente).

Não estou me afiliando, com isso, ao ingênuo discurso de “vamos servir o povo”. Tenho convicção que todas nossas ações são, em última instância, absolutamente egoístas e não servimos ninguém além de nós mesmos. Não sou contra o egoísmo e na verdade sou, eu mesmo, um egoísta. Mas sou adepto de um egoísmo inteligente, que leve em conta também consequências a longo-prazo, o resultado de minhas ações sobre as pessoas e o resultado da ação dessas pessoas sobre mim e sobre o meio em que vivo. Não é um egoísmo de bebês gordos, de crianças mimadas. É perceber que trabalhar em prol do conhecimento – e mais, conhecimentos que sirvam às pessoas, não masturbações mentais e construções de castelos imaginários – é trabalhar em prol de sí mesmo. Como coloca Skinner:

“A ciência é uma disposição de aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos. Os homens refletidos talvez tenham sempre sabido que somos propensos a ver as coisas tal como as queremos ver, em vez de como elas são; contudo, graças a Sigmund Freud, somos hoje muito cônscios das deformações que os desejos introduzem no pensar. O oposto de “pensar querendo” é a honestidade intelectual – um predicado extremamente importante do cientista bem sucedido. (...) Os cientistas simplesmente descobriram que ser honesto – consigo mesmo tanto quanto com os outros – é essencial para progredir. (…) Os cientistas descobriram também o valor de ficar sem uma resposta até que uma satisfatória possa ser encontrada. É uma lição difícil. Requer considerável treino evitar conclusões prematuras, deixar de fazer afirmações onde provas sejam insuficientes e dar explicações que sejam puras invencionices. Entretanto, a história da ciência tem demonstrado repetidamente a vantagem deste procedimento.” (Skinner, 1953/1970, p.16)

Não é em vão que toda ciência tem como objetivo compreender, prever e alterar seu objeto de estudo. Compreender nos permite prever, antecipar, evitar algo indesejável ou como conseguir algo desejável e, caso não seja possível prevenir, saber como alterar.

Debater sobre o sexo dos anjos ou quantas fadas são capazes de dançar na ponta de uma agulha, não serve de nada, por mais que cite vários autores em minhas digressões e traga teorias da física e biologia para justificar as asas ou a dança das fadas. O equivalente disso na psicologia é ficar construindo conceitos imaginários e embarcarmos em debates sobre algo puramente inventado, que serve apenas para mostrar o quão supostamente inteligentes ou profundos somos. Supõe-se que este tipo de pessoa e estes debates sejam profundos porque não podemos enxergar o fundo; mas é por que não são sequer rasas.

Tornar o serviço de psicólogos acessível a mais pessoas é importantíssimo, mas de nada vai adiantar se o psicólogo não pode fazer nada por elas.


Referências:

SKINNER, B.F. Ciência e comportamento humano.  2ª edição – Editora Universidade de Brasília, 1970



Link para o artigo do Botomé:  

14 comentários:

  1. Esse artigo do Sílvio Botomé, junto ao clássico artigo do James Holland: Comportamentalismo: Parte do Problema ou parte da solução, são dois dos que mais marcaram minha formação como psicólogo.

    Procuro revê-los sistematicamente para conferir se aquilo que faço é coerente com a filosofia que procuro seguir...

    Parabéns pelo post!

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  2. Interessante a postagem. Debater, com crítica ou não, é sempre pertinente, desde que seja um exercício efetuado com muita responsabilidade. Criticismo fácil também é comum e os analistas do comportamento são frequentemente alvo de "criticastros de plantão", quase sempre pouco ou nada conhecedores sobre o que supostamente criticam, não é mesmo?....

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  3. Sobre isso, Maria Ester, queria colocar um comentário. Os analistas do comportamento estão empreendidos em uma "crítica pela crítica" dos escritores pos-modernos, sem ao menos lê-los ou entender o minimo do que eles querem dizer. Quando se fala em "hermetismo, "Encher sua teoria de conceitos, referências a filósofos, antropólogos, físicos e matemáticos que dificilmente estudantes de Psicologia terão condição de perceber o charlatanismo ali.", vejo uma clara referência ao texto do Sokal. Eu acho que a crítica é válida no sentido de que esse hermetismo impede de que consigamos entender com facilidade o que tais autores querem dizer, mas não justifica o argumento de que esses autores sejam charlatães.

    Esse tipo de crítica é o oposto simétrico do direcionado a Skinner, quando diz que ele simplifica demais o comportamento humano por "comparar as pessoas a animais".

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  4. Hélder: Obrigado! E tb gosto muito de ambos os artigos que citou. Um post inspirado em Holland não deve demorar também.


    Maria Ester: É verdade. Criticar por criticar ou criticar sem propriedade não tem muita valia. Não acredito que seja o caso do que empreendi nesse post. Falei de algo generalizado, estratégias frequentemente adotadas para blindar teorias, mas não dei nome aos bois.
    Deixei, por hora, que cada um que investigue e avalie o que vem adotando, dado meus apontamentos.


    Anônimo: Concordo com vc, mas perceba: eu não disse que utilizar filósofos ou matemáticos seja, por sí só, charlatanismo ou sequer hermetismo. Para ambos coloquei mais pontos, indispensáveis.

    Algumas teorias são de fato de difícil apreensão, como várias da Física e a até mesmo da análise do comportamento (a dificuldade de ensinar as críticas à teleologia e mentalismo para alunos evidencia isso).
    Mas sem dúvida essa estratégia tem sido adotada para blindar teorias.

    Jamais colocaria todos os autores num pacote e sei do perigo da palavra "charlatanismo". Mas desconheço palavra mais apropriada para muitos desses casos e não vejo necessidade de utilizar eufemismos em um post de blog.

    Abraços

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  5. Obrigado, Sabrina!
    Bom te ver por aqui!

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  6. Incrível, Pedro, como tu conseguiste descrever o que eu sinto nos corredores da minha universidade morando tão longe dela.

    Concordo que esse charlatanismo exista, e sinto que as vezes é praticado ingenuamente pela incapacidade das pessoas de traduzir um pensamento de modo pragmático que o torne comunicável.

    Também sou super a favor do egoísmo inteligente, pena que na nossa elite intelectual existam muitos burros. Fato que os tira um dos principais critérios para praticá-lo.


    Abraços,
    Jamile Lago.

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  7. Valeu, Jamile! Fico contente que tenha gostado do texto.

    Parece que isso que relato é bastante comum, até mais do que eu imaginava inicialmente. E felizmente um número crescente de pessoas está se opondo a isso.

    Penso exatamente o mesmo sobre o egoísmo burro: ele tem impedido a fruição de um egoísmo inteligente, produtivo.

    Abraços

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  8. Gustavo Castañon6 de março de 2012 12:04

    Gostei muito da tese das duas estratégias. É um fato. Os representantes de abordagens como a psicanálise e a sócio-histórica-construcionista social reagem como se a pessoa fosse aética ao criticar a consistência de suas teses, quando de fato nada há de mais anti-ético na ciência e filosofia do que cercear as críticas às suas idéias. O hermetismo é uma estratégia de poder tão antiga quanto a cultura humana, totalmente oposta ao espírito cientifico. Parabéns Pedro.
    Uma crítica eu deixo como reflexão. Não compartilho, certamente, de sua crença que em última análise somos "absolutamente egoístas". Ao tentar esticar o conceito de egoísmo para abarcar comportamentos como o de um soldado que dá a vida pelo seu país numa guerra que ele acha justa, de uma mãe que anda sete quilômetros por dia para economizar o dinheiro da passagem para sustentar seus filhos, ou até o meu perdendo tempo aqui para lhe perguntar sobre isso, você não acha que equivale ao "tudo é sexo" freudiano? Não acha que a palavra perde o sentido? Bem, abraço e parabéns!

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    1. Gustavo Castañon6 de março de 2012 12:07

      Só pra ser justo, deveria ter colocado "geralmente reagem" na terceira frase, porque obviamente, não são todos. Muitos não tem essa atitude.

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  9. Gustavo: muito obrigado pelos elogios e comentários!

    Sua crítica é pertinente, mas a tese do egoísmo não é minha. É até uma das coisas mais antigas da filosofia.
    Acho que ela serve ao menos para lembrar a alguns que nossas ações têm uma razão de ser, inclusive as altruístas, e que a explicação não é simplista como "porque eu gosto de ajudar os outros".

    Abraços

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  10. Parabéns pelo ótimo texto, com o qual acabei me deparando na procura pelo artigo do Botomé " A quem nós servimos de verdade" para citar me minha monografia pois li a citação dele no texto de outro autor!

    Enfim, acabei lendo tudo , pois leio até bula de remédio na falta de um bom livro à mão (agora deixe-me voltar à minha monografia hehehe)

    Passei só pra deixar os parabéns e perguntar de qual estado e em que instituição de ensino você é? Sou estudante de psicologia do 10 período da PUC-MG!

    Grande abraço

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    1. Olá, Vinícius!

      Fico contente que tenha gostado!

      Não estou mais em nenhuma instituição de ensino, já que acabei de concluir minha pós-graduação, mas me formei na PUC-MG, Coração Eucarístico. Ainda frequento, por vezes, o grupo de estudos em Análise do Comportamento de lá.

      Recomendo que o frequente!

      Se quiser trocar uma ideia depois ou algo que eu possa te ajudar, só falar!

      Abraço

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  11. Professor Pedro Sampaio, o recalcado invejoso... TCC pretensioso, sem noção o cara

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